segunda-feira, março 08, 2010

Perfume de Mulher

(Ordem, por favor. Nada de galhofa, pois, que nem um juiz, agora vos fala este cronista. Estejamos entendidos: nenhum homem é uma ilha. Ele é um arquipélago. Os que se acham um continente é bom que se vejam ao espelho. Eu, por exemplo, sou um pequeno Robison Crusoé e me aventuro pelo arquipélago de mim mesmo. Todo homem tem o sagrado direito à dita de ser um arquipélago. Não para que seja um eremita ou coisa parecida, mas para que resguarde as energias para a hora do barulho)


Feedback

Geralmente, tiro o domingo de manhã para passear pela reacção do leitor sobre o K Magazine. É um exercício que me dá gozo e que acompanho a ouvir boa música. Neste momento, escuto Guardanapos de Papel, de Milton Nascimento. Um que me considera demasiado hermético. Outro que me queria a escrever para os analfabetos. Não faltando anónimos, estes frustradíssimos pela impotência, a dizerem cobras e lagartos. Em contraponto à misteriosa que, dando mais uma chave do enigma, me jura amor platónico. Deve ser dos Tambores de Minas. Claro que o leitor pode (e deve) discordar do que escrevo. Estaria a ser ingénuo e incoerente se dele esperasse unanimidade. Essas lérias de unanimidade não fazem a minha praia. Se a minha sintaxe já mexe com uns e outros, a minha semântica, com mais propriedade ainda, lhes é um deus nos acuda. A vacaria sagrada que me perdoe, mas sou vaca malhada. Profana até mais não, para não vos dizer desviada da manada. Portanto, deixem-me escrever sossegado da silva os meus textos impossíveis…


Textos impossíveis

Chego ao café e mando vir um Ice Tea. Com gelo e limão. Os chatos pediriam um café e uma água, fingindo ler um livro em francês. Enquanto a malta joga xadrez ou fala do campeonato de Portugal. Quanta cacofonia! Há quem fique apenas pelas musas de plantão. Mas impossíveis porquê, há-de querer saber algum mais curioso. Manda a lisura explicar que estes textos deitam a mão do GPS para vasculhar o tal Ponto G e, se puderem, com ajuda do engenho e arte, o artefacto das palavras para que se atinja por estas bandas os ODM. Explico aquele sobre o GPS a uma enrabichada Afrodite, disfarçada no meu pensamento de uma Vénus, mas de vulgo Márcia, e complico as contas ao vizinho de mesa, isto de ODM que, ao seu patriotismo ufano, podem bem ser os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio. Já o Pranchinha, invisível em minha companhia desde que a morte o levou, insiste, seviciado pela linguagem da telenovela das oito, que o tal pó da ilha nua…é o cacete! Pelo Prancinha, as minhas desculpas. É o tal que dizia: nunca contes mais um ano, pois é sempre menos um ano. Deste modo, continua com os teus textos impossíveis.


Contingente da Cultura

Qual a percentagem da Cultura no PIB de Cabo Verde? Em que medida ela absorve a força de trabalho? Qual a taxa de crescimento do segmento cultural no quadro económico nacional? Como bem observou o filósofo Edgar Morin, a difusão da Cultura ganhou proporções inimagináveis, tanto horizontal quanto verticalmente, transformando as manifestações artísticas em mercadorias que "são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo, os ectoplasmas de humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma". A produção cultural cabo-verdiana, marcada pela sua singularidade, diversidade e qualidade, para além da importância simbólica e social, deve ser encarada e incorporada como um dos importantes activos económicos, por assentar-se na criação artística, intelectual e na inovação, e pelo seu potencial de gerar desenvolvimento qualificado. É preciso reconhecer e promover a Economia da Cultura em Cabo Verde, nação constituída por comunidades residentes em dois grandes espaços dispersos, quais sejam as no Arquipélago (a vertente da insularidade), quais sejam as espalhadas pelo Mundo (a vertente da diáspora). Vamos vasculhar esta realidade?


(Ordem, repito. Não aquele silêncio impositivo e autoritário, mas esse contemplativo e zen, a querer ver o mundo pela via da nirvana. O silêncio da meditação e da levitação. O poético silêncio de um homem que apenas deseja encontrar-se, como diria Airton Monte. Essa coisa sossegada, mansa, suavemente silenciosa, como se estivéssemos no alto das Mangabeiras)